Telefono Azzurro, l’associazione giunta all’importante traguardo dei 30 anni di attività e che dal 1987 difende i diritti dell’infanzia
07/11/2017 – 20:42 | No Comment

Servizio civile nazionale 2017 telefono azzurro: il bando scade il 20 novembre. Iscrizioni aperte a Firenze, Milano, Napoli, Palermo, Roma e Torino L’associazione da 30 anni attenta al rispetto dei diritti dei bambini e degli adolescenti, seleziona volontari per il progetto “Dico no al Bullismo”.

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Maria de Lourdes Jesus: Mulher de causas

Submitted by on 01/08/2010 – 13:45No Comment
Maria de Lourdes Jesus: Mulher de causas

É uma jornalista que fez muitas das suas lutas na Itália, país para onde emigrou na década de setenta, com 15 anos. Com apenas a quarta classe foi trabalhar como empregada doméstica. Estudou, formou-se e assumiu a defesa das minorias – contra o racismo e a discriminação, pelos direitos dos emigrantes… – em combates que lhe valeram vários prémios. O último é o “Prémio Nelson Mandela”, que recebeu no dia 22 de Junho, em Joanesburgo. 

O prémio “Nelson Mandela” é o 17º prémio conquistado por Maria de Lourdes de Jesus em duas décadas de trabalho na radiotelevisão italiana, RAI. Este prémio foi instituído pela União Desportiva Italiana para distinguir jornalistas que se destaquem na luta contra todas as formas de discriminação. “Este prémio é pelo programa televisivo ‘Non solo Nero’, dedicado à temática da emigração. Recebi o prémio em Joanesburgo, na conferência internacional ‘Uno calzio al razzismo’ – ‘Pontapé no racismo’. A conferência internacional, que aconteceu dia 22 de Junho, teve como palco o Museu do Apartheid, em Joanesburgo”, informa.

Um mês antes, a 22 de Maio, Maria de Lourdes recebera um outro galardão, desta fe ita, na Itália, que também distingue jornalistas. “Esse foi um prémio que me deu particular prazer, porque foi o reconhecimento pelo trabalho que fiz. Mas é também preocupante porque se recebo tantos prémios por combater o racismo, a discriminação e por defender os direitos dos emigrantes, significa que a situação não está boa. O racismo está a aumentar em toda a Europa, particularmente na Itália. E o mais grave é que o governo não está a fazer nada para reverter essa situação, que grassa inclusive a nível institucional. Hoje os emigrantes não têm a quem recorrer”.

Ao contrário do passado, Maria de Lourdes Jesus sente que actualmente não há espaço nos média. Por isso os emigrantes não têm como contrariar o fluxo de informações negativas que condicionam o relacionamento com os italianos. “Emigrei em 1971 e desde então estou a debater essa questão. Politicamente, neste momento a situação não é favorável. O espaço do emigrante é cada vez menor e este não consegue programar a sua vida, que está dependente do ‘Permesso di soggiorno’, ou seja, de uma autorização de estadia”.

Como explica um trabalho fixo é a condição básica para adquirir essa autorização. Assevera Maria de Jesus que o emigrante é obrigado a trabalhar ilegalmente e isso vai condicionar a vida dos filhos. Mesmo que estes tenham nascido na Itália, não conseguem a cidadania. O mais grave é que hoje nenhuma força política – nem mesmo os partidos de esquerda, antes grandes defensores dos emigrantes – ninguém assume esta causa. Os emigrantes sentem-se defraudados.

Apartheid mobilizou Itália

Maria de Lourdes Jesus chegou à Itália numa época de grandes agitações sociais e políticas. As associações, os municípios e os próprios políticos estavam envolvidos em ações contra o apartheid. “A Itália era um país mobilizado contra o racismo, talvez porque o fenómeno estava longe. Lutávamos pela melhoria de condições de trabalho, direitos dos trabalhadores, a favor do divórcio e do aborto. O campo era vasto. Era ainda o período em que estavam em curso as lutas pela independência das colónias em África. Foi uma grande oportunidade para mim, porque conheci o ambiente dos sindicatos e meus direitos”.

No meio de toda essa agitação, é que a adolescente Maria de Lourdes – que emigrou para trabalhar como empregada doméstica em casa de italianos, como milhares de outras mulheres – aprendeu a ter consciência política e a distinguir-se. Ela criou outra ambição e, a par do trabalho, apostou na sua superação e formação. Em Itália, completou os estudos básicos e avançou para o liceu. Trabalhava, estudava e divertia-se, como faz questão de realçar. “Terminei o liceu e enviei cartas para instituições ligadas à cooperação com África. Consegui uma bolsa financiada pelo Instituto Ibero-Americano”. Foi assim que pôde formar-se em jornalismo.

Activa no associativismo, fundou em 1975 a Associação Cabo-verdiana na Itália. Em 1978, foi criada a Organização das Mulheres de Cabo Verde e mais recentemente, em 2005, a Associação Tabanka Onlus. Donde lhe vem toda essa dinâmica? Maria de Lourdes atribui-a à energia e força próprias de uma juventude com ganas de desafiar o mundo. “Nunca sonhei chegar onde cheguei.

Em menina era verdade que quando era questionada sobre o que queria ser, dizia professora e jornalista, mas nunca me imaginei a trabalhar na RAI”.

De professora a jornalista

A ida para a televisão aconteceu depois, quase por um lance do destino. Um conhecido profissional da RAI, Massimo Ghirelli, visitou a escola onde Maria de Jesus era professora. O seu objectivo era filmar actividades e iniciativas a favor dos emigrantes com um certo impacto. “O Massimo pediu-me o meu contacto e ligou no dia seguinte para me dizer que tinha o projecto de criar um programa de TV e esperava contar comigo, tendo em conta a minha experiência de emigração e associativismo, caso a direção da RAI o aprovasse. Mas a RAI só aprovou o projeto três anos depois, e porque houve mudança política”.

O momento coincidiu também com a aprovação da Lei Martelli (1990), que considera a imigração uma questão social. No poder estavam os socialistas e o director da RAI aprovou o projecto. “Foi uma coisa extraordinária. Fui a primeira africana a aparecer na TV, que não ia cantar nem relatar histórias ou situações dramáticas. O objectivo do programa ‘Non solo Nero’ (não só preto), era fazer a ponte entre a comunidade africana e a sociedade italiana. A nossa ideia era fazer os italianos entenderem a emigração e a situação em que os emigrantes viviam”. Mostrava-se “problemas de exploração e discriminação, mas também fazíamos propostas de integração”.

O programa inicialmente tinha uma duração de oito minutos. Mas o seu impacto, mesmo antes da estreia, levou-o para o horário nobre – domingo depois do Telejornal – e com uma duração maior. “A conferência de imprensa que fizemos para apresentar o programa foi muito concorrida. Ninguém esperava. Fomos procurados por jornalistas de vários países e o sucesso foi tanto que a National Geografic resolveu fazer um estudo de ‘Non solo Nero’. O programa esteve no ar até Junho de 1994, altura em que Berlusconi foi eleito. A direcção da TV foi substituída e todos os programas da temática social foram substituídos. Os políticos temiam o poder do programa”.

Ela é que estava decidida a não entregar os pontos. Houve manifestações, encontros públicos, recolha de assinaturas, inclusive fora da Itália, mas de nada adiantou. Pouco depois, ainda em 1994, Maria de Lourdes foi chamada à RAI Rádio para fazer o programa “Permesso di soggiorno”. Este ia para o ar todos os domingos de manhã, a seguir à missa. O programa esteve activo até 2009. Em simultâneo, esta mulher trabalhava na revista “Il mondo nel Piceno”, dedicada à emigração, e numa outra, a “L’Emigrato”, primeira revista italiana direcionada para a emigração italiana e que, mais recentemente, passou a dedicar-se à emigração como um todo. “Quer o programa de rádio, quer a minha participação nas revistas já não me satisfaziam. Por exemplo, em relação a ´L´Emigrato, passei cinco anos a responder a cartas com as mesmas perguntas. Isso porque a situação política não se modificou. Fazia uma análise da emigração e percebia que continuava tudo igual. Senti que não se justificava continuar. Era frustrante”.

Regresso definitivo

Essa frustração levou-a a regressar, este ano, definitivamente a Cabo Verde. Segundo Maria de Lourdes de Jesus, desde 1988 vinha todos os anos de férias, às vezes duas vezes por ano. E fazia questão de vir, porque no tempo em que esteve a estudar na universidade não foi possível. “Estive oito anos sem vir a Cabo Verde e, quando vim, senti-me uma estranha em São Nicolau. Senti-me mal na minha terra e isso deixou-me assustada. Jurei, a partir de então, vir todos os anos. Consegui, nesses anos, retomar as minhas raízes. Construí uma rede de relações de amizade em São Nicolau e noutras ilhas, e em 2005, decidi fixar residência em Cabo Verde”.

A nível profissional, admite a entrevistada, a situação política na Itália mudou e o seu trabalho passou a ser mais controlado. “Sentia-me cerceada. Também estava desiludida porquanto, politicamente, não tínhamos apoio. Entendi que era hora de parar porque, no meu caso, não consigo trabalhar sem entusiasmo. Estive 21 anos na RAI e chegara o momento de parar, pelo menos na Itália”.

Maria de Lourdes Jesus regressou e já arregaçou as mangas. Criou, junto com alguns jovens de São Nicolau e de outras ilhas, que também já foram emigrantes e residem na Praia, a Associação Maré Caela. A sua primeira actividade foi apresentar a versão italiana de “Chiquinho”, romance de Baltasar Lopes. Em Agosto, vai estrear o documentário “M’ri Chica”, em São Nicolau.

“É minha intenção trabalhar no âmbito da cooperação para manter a ponte com Itália”, diz Maria de Lourdes de Jesus. “Nos anos em que estive em Itália, tentei fazer a ponte entre as comunidades e os nativos. Agora quero fazer o mesmo entre os dois países”.

Neste primeiro momento, a associação está mais virada para São Nicolau. Por exemplo, através da ICASL – Instituto para a Cooperação e Desenvolvimento da região italiana de Piemonte, conseguiu reativar a rádio comunitária da Ribeira Brava. Trouxeram os equipamentos e vieram dois técnicos da Itália que ministraram formação aos jovens que vão gerir essa rádio e a outras pessoas interessadas em aprender as técnicas de comunicação. Mas têm muitos outros projectos em carteira.

Aliás, a ideia é aproveitar a experiência acumulada nas constantes viagens e conferências – na Ásia, África e América, mas também na ONU – e os contactos conquistados ao longo dos anos para ajudar Cabo Verde. “Fui recebida pelo presidente da Itália quando recebi o prémio ‘Pomba de Ouro pela Paz’. Nessa altura também premiaram o reverendo Jesse Jackson. Participei em meetings na China, Nova Iorque, Alemanha. O meu trabalho enriqueceu-me do ponto de vista humano e do conhecimento da situação geral da emigração. E esse capital que adquiri não tem preço. Sinto que posso usar essa experiência aqui em Cabo Verde”.

Fonte: http://www.asemana.publ.cv

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